
Fundadora, diretora e contadora da Accurate Complete Accounting LTD explica por que a contabilidade estratégica se tornou essencial para empresários que desejam crescer, organizar seus negócios e proteger o patrimônio de forma legal
Durante muito tempo, a contabilidade foi vista por parte dos empresários apenas como uma obrigação necessária para calcular impostos, entregar declarações e manter uma empresa regularizada.
Essa visão, entretanto, tornou-se insuficiente.
Em um mercado cada vez mais competitivo, internacionalizado e sujeito a riscos tributários, financeiros e operacionais, a contabilidade passou a ocupar uma posição central nas decisões empresariais. Mais do que registrar o passado, ela deve oferecer informações para planejar o futuro.
É nesse contexto que também cresce o interesse por holdings e estruturas internacionais voltadas à organização patrimonial, à sucessão familiar e à expansão de negócios.
Mas o assunto exige responsabilidade.
Uma holding não é uma solução automática, não elimina todos os riscos e não deve ser utilizada para ocultar patrimônio, frustrar credores ou evitar obrigações legais. Quando corretamente planejada, porém, pode ser um instrumento importante de governança, organização e continuidade empresarial.
Nesta entrevista, Vanusa de Aveiro, fundadora, diretora e contadora da Accurate Complete Accounting LTD, fala sobre contabilidade estratégica, proteção patrimonial e os cuidados necessários antes de constituir uma holding em Londres.

Por que a contabilidade não pode mais ser tratada apenas como uma obrigação fiscal?
Vanusa de Aveiro: A contabilidade não deve funcionar apenas como um registro daquilo que já aconteceu. Ela precisa ajudar o empresário a compreender o presente e a tomar melhores decisões sobre o futuro.
Quando os números estão organizados, conseguimos identificar margens, custos, fluxo de caixa, riscos, obrigações e oportunidades de crescimento. O empresário deixa de decidir apenas pela intuição e passa a decidir com base em informações concretas.
Uma contabilidade estratégica mostra se a empresa realmente está gerando resultado, onde estão os desperdícios, quais áreas precisam de atenção e até que ponto o negócio está preparado para investir ou expandir.
Por isso, considero que o contador precisa atuar como um parceiro estratégico do empresário, e não apenas como alguém responsável por entregar documentos.
Qual é a relação entre uma contabilidade organizada e a proteção do patrimônio?

Vanusa de Aveiro: A proteção patrimonial começa pela organização.
Quando o empresário mistura despesas pessoais com recursos da empresa, retira dinheiro sem planejamento, mantém contratos frágeis ou não possui informações confiáveis sobre seus ativos e obrigações, ele aumenta consideravelmente sua exposição.
O primeiro passo é estabelecer uma separação clara entre a pessoa física, a empresa operacional e os ativos patrimoniais. Depois, é necessário analisar governança, contratos, seguros, sucessão, tributação e conformidade.
No Reino Unido, uma limited company é uma entidade jurídica separada, e as finanças da empresa devem permanecer claramente separadas das finanças de seus proprietários e diretores. Os administradores também continuam responsáveis pela manutenção de registros, elaboração das contas e cumprimento das obrigações fiscais e societárias. (Gov.uk)
Portanto, a proteção não nasce de uma única empresa ou de um documento. Ela nasce de um conjunto coerente de medidas.
O termo “blindagem patrimonial” é correto?
Vanusa de Aveiro: “Blindagem patrimonial” é uma expressão muito utilizada pelo mercado, mas pode transmitir a ideia equivocada de proteção absoluta.
Nenhuma estrutura séria deve prometer que o patrimônio ficará totalmente imune a dívidas, decisões judiciais, garantias pessoais, responsabilidades tributárias ou atos praticados de forma irregular.
Eu prefiro falar em planejamento e proteção patrimonial lícita.
O objetivo é identificar riscos, separar adequadamente os ativos, estabelecer regras de governança e preparar a continuidade do patrimônio. Tudo precisa ser feito preventivamente, com transparência e dentro da legislação aplicável.
Proteção patrimonial não significa esconder bens. Significa organizar legalmente aquilo que foi construído.

Qual pode ser o papel de uma holding nesse planejamento?
Vanusa de Aveiro: Uma holding pode concentrar participações societárias, organizar ativos, definir regras entre sócios e facilitar o planejamento sucessório.
Para uma família empresária, por exemplo, a estrutura pode ajudar a estabelecer como as decisões serão tomadas, quem poderá ingressar na administração, como ocorrerá uma eventual transferência de participações e quais regras deverão orientar a sucessão.
Para empresas que pretendem operar internacionalmente, uma holding também pode oferecer uma estrutura mais organizada para participações em diferentes negócios ou mercados.
Mas é importante dizer com clareza: uma holding não é necessária para todas as pessoas ou empresas.
Antes de constituí-la, precisamos analisar o patrimônio existente, a atividade empresarial, a residência fiscal dos envolvidos, os países relacionados, os custos de manutenção e os objetivos de longo prazo.
O primeiro passo não deveria ser abrir a holding. O primeiro passo deveria ser realizar um diagnóstico.
Por que empresários brasileiros demonstram interesse em constituir holdings em Londres?

Vanusa de Aveiro: Londres possui relevância internacional, conexão com investidores e um ambiente empresarial amplamente reconhecido.
Para determinados projetos, ter uma estrutura britânica pode contribuir para a organização de participações, a internacionalização da empresa, a entrada de parceiros e a realização de negócios em diferentes mercados.
Entretanto, Londres não deve ser apresentada como um lugar para esconder patrimônio ou criar estruturas anônimas.
As empresas britânicas precisam informar quem exerce controle significativo sobre elas, os chamados People with Significant Control, e as regras de verificação de identidade de diretores e controladores foram ampliadas. Além disso, existem obrigações relacionadas a contas anuais, declarações fiscais e confirmação periódica das informações da companhia. (Gov.uk)
A força de uma estrutura britânica está justamente na credibilidade que pode resultar de uma governança séria e de uma operação em conformidade, e não no anonimato.
Ter uma holding no Reino Unido significa automaticamente pagar menos impostos?
Vanusa de Aveiro: Não. Esse é um dos principais equívocos que encontramos no mercado.
Nenhuma economia tributária deveria ser prometida antes de uma análise individualizada. A tributação dependerá da residência fiscal dos sócios, da natureza dos ativos, da origem das receitas, da atividade exercida, da forma de distribuição dos resultados e dos países envolvidos.
Uma empresa britânica continua sujeita a registros, declarações e obrigações tributárias. Empresas enquadradas nas regras do Reino Unido podem estar sujeitas ao Corporation Tax sobre seus lucros, conforme a situação específica. (Gov.uk)
O planejamento tributário legítimo procura eficiência dentro da lei. Ele não pode ser confundido com evasão, ocultação ou criação artificial de operações.
A pergunta correta não é simplesmente “quanto vou economizar?”. A pergunta correta é: essa estrutura oferece benefícios econômicos, operacionais e patrimoniais superiores aos seus custos e responsabilidades?
Quais são os erros mais comuns cometidos por empresários que tentam proteger o patrimônio?
Vanusa de Aveiro: Um erro frequente é procurar uma estrutura pronta e acreditar que ela funcionará da mesma forma para qualquer pessoa.
Outro problema é abrir uma empresa no exterior apenas pelo prestígio de ter uma companhia internacional, sem atividade real, planejamento, controles internos ou compreensão dos custos envolvidos.
Também vemos empresários que misturam recursos pessoais e empresariais, não mantêm documentos adequados, ignoram sua residência fiscal ou deixam para pensar em proteção patrimonial somente quando já existe uma dívida, um conflito entre sócios ou um problema familiar.
Planejamento sério é preventivo. Ele precisa ser construído antes da crise.
Para quem uma holding pode fazer sentido?
Vanusa de Aveiro: Uma holding pode ser considerada por empresários que possuem diferentes empresas, patrimônio relevante, imóveis, participações societárias, operações internacionais ou necessidade de organizar a sucessão familiar.
Também pode fazer sentido quando existem diversos sócios, investidores ou herdeiros e é necessário estabelecer regras mais claras de administração e continuidade.
Por outro lado, para um negócio pequeno, simples e sem patrimônio relevante, os custos contábeis, jurídicos e administrativos da estrutura podem superar os benefícios.
Uma recomendação responsável também precisa saber dizer quando o cliente não necessita de uma holding.
Qual é o cuidado adicional para quem possui interesses no Brasil e no Reino Unido?
Vanusa de Aveiro: Uma estrutura internacional não pode ser analisada apenas sob a legislação de um dos países.
É necessário avaliar as obrigações existentes no Reino Unido e também os impactos relacionados ao Brasil, incluindo residência fiscal, declarações, origem dos recursos, distribuição de lucros, sucessão e movimentação de ativos.
Uma solução eficiente em uma jurisdição pode produzir obrigações inesperadas em outra.
Por isso, o trabalho deve ser coordenado entre profissionais contábeis, tributários e jurídicos que compreendam as diferentes jurisdições envolvidas.
Como deveria começar um projeto de organização patrimonial?
Vanusa de Aveiro: O projeto deve começar com perguntas, e não com a venda imediata de uma estrutura.
Precisamos entender quem é o cliente, quais ativos possui, onde estão localizados, quais empresas estão envolvidas, quais riscos existem e quais objetivos pretende alcançar.
Em seguida, construímos cenários e comparamos os custos, benefícios, riscos e obrigações de cada possibilidade.
Somente depois dessa análise podemos avaliar se a solução adequada envolve uma holding, uma reorganização societária, um acordo entre sócios, um planejamento sucessório ou simplesmente uma melhoria nos controles contábeis e financeiros.
Uma boa estrutura não é a mais complexa. É a mais adequada à realidade do cliente.

Qual é a responsabilidade do contador nesse processo?
Vanusa de Aveiro: O contador tem a responsabilidade de transformar complexidade em clareza.
Ele deve ajudar o empresário a compreender as consequências financeiras e tributárias de suas decisões, manter registros confiáveis e identificar riscos antes que se transformem em problemas maiores.
Quando o projeto envolve contratos, sucessão ou estruturas jurídicas mais complexas, o contador deve trabalhar de forma integrada com advogados e outros especialistas.
Ninguém deve prometer aquilo que não pode entregar. A confiança é construída por meio de transparência, documentação, competência técnica e acompanhamento contínuo.
Que mensagem você deixaria para o empresário que passou anos construindo sua empresa?
Vanusa de Aveiro: Eu diria que crescer é importante, mas crescer sem organização pode aumentar os riscos.
Quem levou anos para construir uma empresa também precisa dedicar tempo à estrutura que dará continuidade a esse patrimônio.
Não espere surgir um conflito entre sócios, uma dificuldade tributária ou um problema sucessório para começar a planejar.
Você construiu sua empresa. Agora precisa construir a estrutura que ajudará a proteger, organizar e perpetuar tudo aquilo que conquistou.
O primeiro passo não é necessariamente abrir uma holding. O primeiro passo é conhecer sua realidade, identificar suas vulnerabilidades e tomar decisões com informação.
CONTABILIDADE ESTRATÉGICA PARA PROTEGER O PRESENTE E PLANEJAR O FUTURO
Fundada por Vanusa de Aveiro, a Accurate Complete Accounting LTD atua no Reino Unido e no Brasil, oferecendo serviços contábeis e suporte estratégico a empresários e organizações que operam localmente ou entre os dois mercados. A empresa está ativa no registro britânico desde 2011 e possui atividades registradas nas áreas de contabilidade, auditoria e bookkeeping. (Accurate Complete Accounting)
A mensagem central defendida por Vanusa é que patrimônio não deve ser administrado por improviso.
Antes de qualquer estrutura internacional, é necessário compreender os objetivos do empresário, avaliar os riscos, respeitar as obrigações legais e construir um planejamento compatível com sua realidade.
FRASE DE DESTAQUE
“PATRIMÔNIO NÃO SE PROTEGE COM PROMESSAS. PROTEGE-SE COM INFORMAÇÃO, ESTRUTURA, GOVERNANÇA E CONFORMIDADE.”

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