Hospitalidade, experiências e longevidade estão no centro da visão do cineasta e empresário sobre o potencial brasileiro para atrair capital e transformar sua identidade cultural em negócios de padrão internacional.

Frederico Lapenda: Brasil, hospitalidade, experiências e longevidade os pilares de um novo ciclo de oportunidades
Cineasta e empresário radicado em Los Angeles há quatro décadas, Frederico Lapenda acredita que a combinação entre capital, turismo, lifestyle, wellness e experiências únicas coloca o Brasil diante de um novo ciclo de oportunidades na hotelaria.
Há mercados que precisam ser descobertos. Outros precisam apenas ser redescobertos.
Para Frederico Lapenda, o Brasil pertence à segunda categoria.

Cineasta, produtor e empresário brasileiro radicado em Los Angeles há cerca de 40 anos, Lapenda acompanhou a evolução dos mercados internacionais de entretenimento, turismo e hospitalidade. Ex-Embaixador do Turismo Brasileiro e viajante frequente, construiu ao longo de décadas uma visão internacional sobre negócios, marcas e comportamento.
Sua tese é simples: o Brasil possui ativos que o mundo deseja e que ainda podem ser muito melhor transformados em produtos de hospitalidade.
Lapenda afirma que “O mundo gosta do Brasil e gosta do brasileiro. O Brasil conecta. A nossa felicidade é contagiante, nossa maneira de receber as pessoas é diferente e temos uma diversidade de experiências que poucos lugares no mundo conseguem oferecer.”

Uma tese que começou há 15 anos
Lapenda começou a acompanhar mais de perto o potencial da hotelaria brasileira há aproximadamente 15 anos, quando o cenário ainda era bastante diferente.
Um ano antes da Copa do Mundo de 2014, veio ao Brasil acompanhado de uma linha de crédito de aproximadamente R$ 500 milhões de um fundo canadense, buscando oportunidades para aquisição de um imóvel ou ativo hoteleiro no Rio de Janeiro ou em São Paulo.
O mercado, porém, ainda apresentava obstáculos.
“Visitei vários imóveis no Rio e em São Paulo. Naquele momento, muitos tinham obstáculos fiscais e estruturais importantes. Talvez isso também refletisse o fato de que a hotelaria brasileira ainda não apresentava a rentabilidade e a maturidade que vemos hoje.”
Uma das propriedades visitadas foi o empreendimento que viria a se tornar o Palácio Tangará, em São Paulo. Na época, ainda inacabado e abandonado, o projeto tinha como investidores o fundo de pensão dos funcionários do Banco do Brasil.

“Eu visitei o Tangará quando ainda estava inacabado. Era possível enxergar o potencial, mas também era evidente que existiam desafios importantes para transformar aquele ativo em um produto de hotelaria de alto padrão.”
Nos anos seguintes, o mercado começou a produzir exatamente o tipo de produto que Lapenda acreditava que faltava. Fasano, Tangará e Rosewood tornaram-se referências no segmento de luxo, enquanto grandes marcas internacionais passaram a olhar para o Brasil com outra perspectiva.

Quando o capital sofisticado chega
Para Lapenda, um dos sinais mais importantes da transformação é a qualidade dos investidores que passaram a olhar para o setor.
A Four Seasons, controlada pela Cascade Investment, ligada a Bill Gates, prepara um novo empreendimento no Leblon, no Rio de Janeiro. O BTG Pactual, de André Esteves, também ampliou sua exposição à hotelaria, incluindo a aquisição de 18 hotéis da AccorInvest no Brasil por cerca de R$ 1,7 bilhão.
Segundo Lapenda “Quando investidores desse nível começam a colocar capital em hotelaria no Brasil, é um dos maiores sinais de que existe uma mudança estrutural. O capital sofisticado não olha apenas para o que o mercado é hoje. Ele olha para o que o mercado pode se tornar.”

O setor hoteleiro brasileiro prevê R$ 13,6 bilhões em investimentos em 178 novos hotéis em 2026, adicionando aproximadamente 26 mil unidades habitacionais.
Para Lapenda, entretanto, o maior diferencial brasileiro não está apenas nos números.
Está na experiência.
O Brasil não vende apenas hospedagem. Vende experiências.
Carnaval. Amazônia. Praias. Gastronomia. Música. Futebol. Cultura. Natureza. Vida noturna. Arte. Wellness.
E, principalmente, um lifestyle.

“Você pode conhecer hotéis extraordinários em várias partes do mundo. Mas existem experiências que só o Brasil pode oferecer.”
Para Lapenda, essa força cultural é também um ativo econômico.
“Na minha análise, o Brasil está hoje entre as três culturas mais influentes do mundo. Não estou falando apenas de tamanho ou economia. Estou falando de influência cultural: música, futebol, Carnaval, moda, gastronomia, entretenimento e, principalmente, nosso lifestyle.”
Essa influência pode ser especialmente relevante para a hotelaria de luxo, em um momento em que viajantes buscam cada vez mais autenticidade e experiências que não possam ser reproduzidas em qualquer lugar.
“Quando uma pessoa viaja, ela não está comprando apenas uma cama de hotel. Ela está comprando uma história, uma sensação, uma experiência. E o Brasil tem uma identidade cultural que o mundo reconhece.”
Wellness encontra o lifestyle brasileiro
Outro componente que Lapenda considera especialmente promissor é o wellness.
O cuidado com o corpo, estética, alimentação, exercício e qualidade de vida já faz parte de maneira muito intensa do lifestyle brasileiro.
“O brasileiro tem uma relação muito forte com o corpo. Existe uma cultura de praia, exercício, alimentação, estética e cuidado pessoal que é muito amplificada no Brasil.”
Na visão de Lapenda, isso abre espaço para uma nova geração de hotéis, resorts e empreendimentos imobiliários em que wellness deixa de ser apenas um spa e passa a fazer parte do conceito do projeto.
Academias, longevidade, tratamentos, alimentação, natureza, atividades físicas e experiências ao ar livre podem se integrar ao produto hoteleiro.

“O wellness brasileiro não precisa ser importado. Ele já existe culturalmente. O que precisamos fazer é transformar isso em produtos de hospitalidade de padrão internacional.”
O ativo invisível do Brasil
Depois de quatro décadas vivendo em Los Angeles e viajando pelo mundo, Lapenda diz ter percebido algo que considera particularmente importante para o futuro do turismo brasileiro: a simpatia internacional pelo Brasil.
“O mundo gosta do Brasil. E gosta do brasileiro. Nós temos uma capacidade natural de conectar, receber, criar relacionamento e transformar uma experiência em memória. Isso é um ativo.”
Para ele, essa característica ganha ainda mais valor em uma economia na qual experiências se tornam tão importantes quanto produtos.
“Você pode construir um hotel de US$ 100 milhões em qualquer lugar. Mas não consegue construir uma Amazônia. Não consegue fabricar o Carnaval. Não consegue reproduzir a energia espontânea do brasileiro.”

De oportunidade percebida a mercado de consenso
Há cerca de 15 anos, quando Lapenda chegou ao Brasil procurando oportunidades com uma linha de crédito de R$ 500 milhões, o cenário apresentava barreiras fiscais, ativos problemáticos e pouca oferta realmente sofisticada.
Hoje, grandes grupos internacionais, fundos de investimento e investidores institucionais enxergam um mercado diferente.
Para Lapenda, essa é a confirmação de uma tese que começou muito antes de o mercado se tornar consenso.
“Naquela época, eu via um mercado com problemas, mas também via o potencial. Hoje, o mercado amadureceu. Os produtos melhoraram, o capital chegou e o consumidor mudou.”
Agora, o desafio é transformar aquilo que o Brasil tem de mais valioso sua cultura, seu lifestyle, sua natureza e sua capacidade de fazer as pessoas felizes em produtos de hospitalidade cada vez mais sofisticados.
E é justamente nessa interseção entre entretenimento, turismo, real estate, lifestyle e capital internacional que Lapenda vê as próximas oportunidades.
“O Brasil não precisa tentar ser outro país. Precisa ser cada vez mais Brasil, com excelência internacional.”

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